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Análise de uma Intervenção Clínica

Ademir Biotto

ANÁLISE DE UMA INTERVENÇÃO CLÍNICA:
TRABALHO CORPORAL COM IDOSOS FRAGILIZADOS E SEMI-DEPENDENTES*

*Este trabalho vem sendo desenvolvido em parceria com a Psicóloga e Psicoterapeuta Corporal Mara Oliveira. Minha grande amiga e parceira de longa jornada.

A teoria boa é aquela que vem da prática e volta para ela.
Guntrip, H.

Agradecimentos:

Deixo meu profundo agradecimento a Mara, minha amiga e companheira de trabalho, principalmente neste projeto que tem trazido muitos frutos.

A toda equipe da SOBAB que me acolheu e me trata com tanto carinho. As trainers internacionais Mirian de Campos e Eulina Ribeiro, as trainers locais Ana Lúcia Faria, Mariusa Martins, Maria Tereza Canepa e à Maria Zeneide Monteiro que além dos workshops supervisionou todo o trabalho.Não posso deixar de mencionar a Sarita Medice que nas supervisões que ela acompanhou contribuiu muito E não menos importante aos colegas da turma que me acolheram desde o primeiro momento como se eu fosse sempre do grupo.

Aos fundadores da AFAI pela oportunidade, confiança e apoio para realizar o trabalho e aos idosos que sempre me recebe com um sorriso no rosto.

A partir da experiência com grupo de idosos e com grupos de pacientes psiquiátricos em uma clínica psiquiátrica, tivemos a oportunidade de conhecer os diretores de um Centro Dia, voltado ao cuidado de idosos demenciados, decidimos desenvolver um trabalho com os usuários desta instituição. Ao longo de 12 anos de trabalho, com grupos de pessoas vivendo a fase do envelhecer, fomos percebendo mudanças relacionadas às crenças sobre mitos do envelhecimento, que aprisionam a pessoa de desenvolver-se no si mesmo, e o efeito das mesmas neste processo. Baseados na visão winicotiana, construímos um projeto acreditando que é processo da natureza humana desenvolver-se na relação através de ciclos, em um continuum, com a presença do outro, rumo à integração.

Vitalidade, prazer, saúde, emoções e autonomia, são condições da natureza humana que só terminam com a morte, não pertencendo exclusivamente a uma única fase ou condição de nossa vida.

A justificativa, para a realização do trabalho, parte do pressuposto que os recursos tecnológicos e médicos aumentam a expectativa de longevidade das pessoas, mas continuamos a ver a existência dos preconceitos contra o envelhecer, que se intensificam quando este envelhecimento traz consigo doenças crônicas ou senis, acarretando a perda da capacidade de gerir a própria vida. Outro fator desta problemática, é a negação familiar da doença, muitas vezes não compreendida, gerando angustia em ambos os lados, ocasionando culpas e terminando no isolamento da pessoa doente.

Acreditamos na visão do envelhecimento como parte do processo do desenvolvimento humano – mesmo no caso das doenças degenerativas, que afetam as áreas da memória, linguagem, emoções, etc. Ao trabalharmos com o corpo e o psíquico intervimos na pulsação do organismo como um todo, intensificando sua “saúde”. Apostamos que a presença dos psicoterapeutas e coordenadores, do grupo de trabalho, propicie um suporte emocional e de reconhecimento do outro, como um ser com possibilidades, criando um ambiente facilitador dos vínculos afetivos, de inclusão no grupo, como uma potência vital onde reafirmamos a vida mais digna e integrada.

Segundo W.D.Winnicott, “a construção do si mesmo, a consciência do ser pessoa se inicia ao nascer e se completa em nossa finitude”. Consciência esta que se forma através das relações com o ambiente, do sentimento de pertencer a si mesmo e ao outro – alicerce e força de vida na travessia da nossa jornada. Uma aprendizagem que acontece por meio de todos os sentidos, do passado, do hoje e anseios do vir a ser.

O foco na mudança de paradigma – envelhecer como processo natural do desenvolvimento humano, apoiado nas abordagens teóricas de W.D.Winnicott e Alexander Lowen – Análise Bioenergética, trouxe as seguintes percepções no acompanhamento dos grupos: resgate da vitalidade, criação de relações onde as diferenças se compõe, abertura para o novo, sensação de maior plenitude, contato com a própria força de vida.

No interesse de aprofundar esse trabalho e integrar ações de cidadania participamos de algumas reuniões na Câmara Municipal de São Paulo, especificamente na comissão permanente voltada para idosos, entramos em contato com coordenadores de um Centro Dia (Associação dos Familiares e Amigos dos Idosos/AFAI), que atende idosos fragilizados (demências, sequelas de AVC, depressão) há 06 anos e estes nos trouxeram o seguinte dado. Com o aumento da longevidade, há um crescimento acelerado de prevalência de Mal de Alzheimer – em relação a outras doenças – cerca de 20% na faixa de 80 anos, caracterizando uma questão de saúde publica.

Em função disso, fomos buscar mais dados e descobrimos que segundo a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), estima-se que 1,2 milhão de brasileiros tenha essa doença. A partir do momento em que a expectativa de vida aumenta, espera-se também um número maior de diagnósticos do Mal de Alzheimer. A cada ano, acontecem 4,6 milhões de novos diagnósticos. Em nosso país, muitas pessoas são acometidas pela patologia e seguem sem o diagnóstico, sem medicação e, sobretudo, sem o cuidado diferenciado necessário.

São esses números assustadores que descortinam o desamparo total das famílias em sua angustia de ver os entes queridos em crescente dependência econômica, e de cuidados.

Para o poder público esses cidadãos não existem, não há lei que os ampare, nem profissionais da área da saúde capacitados para o diagnóstico precoce do Alzheimer, o que nos mostra uma ausência de política de saúde publica que possa levar esclarecimentos e orientações para a sociedade quanto à identificação precoce dos sintomas e imediato tratamento da doença, o que possibilitaria melhores prognósticos para retardar o avanço da mesma.

O Centro Dia – Associação dos Familiares e Amigos dos Idosos/AFAI

O Centro Dia é uma instituição sem fins lucrativos de caráter assistencial, cultural, educacional, recreativo, beneficente e científico. O perfil de atendimento está centralizado no idoso que apresenta semi dependência, que não consegue ficar só, por riscos de acidentes, não geri a própria vida ou por solidão. Outra característica do Centro Dia é a sua luta junto aos poderes públicos na aprovação e implantação de uma lei que regulamente o funcionamento de Centros Dia para idosos fragilizados. Neste momento, a AFAI é referência deste serviço na cidade de São Paulo. Os idosos chegam na casa às 07h30min e ficam até às 17h00min. Fazem lá desde o café da manhã até o lanche da tarde às 15h30min.

O corpo técnico é composto por Cuidadores, Fonoaudiólogo, Terapeuta Ocupacional, Fisioterapeuta, Enfermeiro, Gerontólogo, Psicólogos e alguns voluntários, numa delas se aplica dança sênior.

O que fomos percebendo, no contato com o Centro Dia, que é mais que uma casa, é um lar. Já na entrada, há um pequeno jardim com várias plantas, folhagens e flores – um convite para o acolhimento. Suas instalações são simples e bem adaptadas às necessidades dos que ali frequentam. Os funcionários (cuidadoras, cozinheira e faxineiros) nos recebem sempre com um sorriso nos lábios. A direção da casa está sempre preocupada em nos passar o máximo de informações e, deixar claro qual a sua proposta e necessidade. Nos aniversários dos usuários sempre há uma comemoração, normalmente no lanche da tarde, para integração entre os mesmos. Todos dão seu depoimento para o aniversariante, é emocionante participar disto. Para captação de recursos, existe um bazar (tipo brechó) bem conhecido na região, que funciona às terças e quintas feiras, onde se encontram roupas de qualidade, sapatos e acessórios.

Uma característica importante do Centro Dia é a qualidade do serviço amparado nas relações afetivas, visto que o afeto é preponderante na vinculação, aceitação e participação do usuário, fator este com o qual nos identificamos por acreditarmos na humanização do cuidado. Nesse sentido, o acolhimento do grupo e a nossa disponibilidade interna foram decisivos para o desenvolvimento do trabalho.

O Projeto de Trabalho Corporal com Idosos

Após dois meses de trabalho voluntario, com um encontro semanal de 1 hora e 30 minutos, elaboramos um projeto que nasceu dessa vivência de interação com os usuários, no qual trabalhamos: estimulação da vitalidade através de memórias corporais; espaço de escuta e humor, tempo de conhecer e de respeito às limitações e desejos de cada participante. Tínhamos como objetivos.

1) Proporcionar de forma criativa e lúdica a estimulação da memória sensorial e de fixação a partir dos recursos pessoais e das vivências do dia-a-dia dos participantes do grupo.

2) Criar condições para o despertar do corpo, estimulando a força da energia vital como criação de um outro modo de estar na vida.

3) Criar recursos para possibilitar a administração das instabilidades afetivas, emocionais e do humor, tanto para os idosos, como para a família e os cuidadores.

4) Incentivar, através do trabalho corporal, o reconhecimento das sensações e sentimentos para fortalecer a segurança emocional e física.

5) Criar um espaço de suporte para a família e/ou cuidadores no sentido de desmitificar crenças relacionadas ao envelhecer e a compreensão da doença e suas consequências.

6) Criar condições para a família e/ou cuidadores para uma convivência mais saudável, integrando o idoso à rotina diária, fortalecendo os vínculos e laços afetivos.

7) Promover grupo de discussão para troca e aprendizagem dentro de uma visão interdisciplinar.

A partir desses objetivos procuramos construir novas formas de relação através do olhar para o ser que ali está e não para doenças e/ou diagnósticos, buscando em cada encontro nos relacionar com a vida que há em cada um, acreditando na força do afeto, atuando na qualidade de vida e abrindo novos caminhos de possibilidades para minimizar a evolução da doença, seja ela Alzheimer, depressão ou isolamento.

Nossa prática com os idosos está amparada na formação como Analista Bioenergético de A.Lowen, que postula que a Bioenergética é também uma forma de terapia que combina o trabalho com o corpo e com a mente para ajudar as pessoas a resolverem seus problemas emocionais e melhor perceberem o seu potencial para o prazer e para a alegria de viver. Corpo e mente são funcionalmente idênticos, isto é, o que ocorre na mente reflete o que esta ocorrendo no corpo e vice-versa , conceito este que nos amplia o conhecimento do outro através da diversidade de expressões e comunicações do si mesmo no corpo. Estamos também embasados na Teoria do Amadurecimento Pessoal de W.D.Winnicott, que através do estudo da natureza humana (questão preponderante em sua obra), postulou “todo individuo é dotado de uma tendência inata ao amadurecimento, que para realizar-se precisa de cuidados ambientais satisfatórios (facilitadores) Teoria que contempla e fundamenta a relação com eles, através de uma presença que se vê parte do desenvolvimento de cada um, que acolhe, incentiva e provoca o contato consigo mesmo.

Após a entrega do projeto à direção do Centro Dia, passamos a ter uma ajuda de custo e a desenvolver o trabalho de análise dentro dos objetivos propostos.

Perfil do Grupo

O Centro Dia atende um grupo de no máximo de 15 pessoas por dia e nem todos os usuários tem frequência diária na AFAI. Quando algum dos usuários sai abre-se uma vaga para um novo integrante. Desde o inicio do nosso trabalho entraram e saíram 09 pessoas das quais dois eram homens e sete mulheres. Desses nove, soubemos que três mulheres e um homem foram institucionalizados, dois pela crescente dependência saíram do perfil de atendimento do Centro Dia, uma mudou o dia de frequência, outra mudou-se de cidade com a filha e uma não soubemos o motivo. A média de idade dos usuários é de 82 anos, sendo que o mais velho tem 90 anos e o mais novo 63 anos. Nove usuários frequentam cinco dias na semana; quatros duas vezes na semana; três, três vezes e uma quatro vezes. Dos 13 usuários atuais do nosso grupo, 04 são de origem ocidental e os demais de origem oriental (japoneses). Atualmente o grupo é formado por um homem e doze mulheres. Sabemos que duas usuárias tem o diagnóstico medico de Alzheimer, duas com sequelas de AVC, uma com histórico de depressão e os demais não têm diagnóstico.

1. O Trabalho Corporal em grupo

Há duas razões para termos optado por trabalhar em grupo. Primeiro porque acreditamos que o trabalho de grupo propicia a situação ideal de estimular e apoiar o sentimento de inclusão e pertencimento, além de desenvolver habilidades de contato nas relações, fortalece os vínculos afetivos na diversidade e relativiza as dificuldades por eles relatadas e vivenciadas. Segundo porque já há uma psicóloga que faz o atendimento individual com os usuários e atende também aos familiares para orientações básicas e encaminhamento psicoterapêutico quando necessário.

O nosso trabalho se compõe em duas etapas. A primeira está relacionada ao objetivo de memorização, inclusão e pertencimento; a segunda é o trabalho corporal e expressivo visando estimular a vitalidade e a consciência do si mesmo no corpo. Acreditamos que a integração dessas duas etapas tem um efeito na saúde como um todo.

Primeira etapa – Falar os Nomes: 

Esta atividade vem sendo aplicada desde o início do trabalho no Centro Dia e consiste no seguinte. Pedimos para que os usuários decidam quem iniciará a atividade. Quando um dos membros do grupo se dispõe a iniciar o trabalho ele começa falando o seu nome e depois, principiando pela sua direita ou pela sua esquerda fala o nome da pessoa que está do seu lado e assim sucessivamente até dizer o nome de todos, caso tenha começado pela direita a pessoa da direita dá prosseguimento com o exercício até todos do grupo falarem o nome de todos. Fazemos algumas modificações como, por exemplo, contamos o numero de participantes e pedimos aleatoriamente para que uma pessoa diga um numero de um a 13, e o número escolhido da pessoa correspondente inicia a atividade. Outra variação proposta é que um dos coordenadores vá até a pessoa que iniciará a atividade e vá caminhando com ela de pessoa em pessoa e esta vá falando seus nomes.

Nossa hipótese é que estabelecendo uma relação de afeto entre eles, a memória possa ser melhor acessada, pois esta está ligada ao fato de lembrarem ou não das pessoas e do que está acontecendo. Observamos que: se têm afeto a memória se retém e se preserva, por exemplo a grande maioria dos idosos lembram do nosso nome e os que não lembram fazem algum tipo de referência a nossa pessoa. Outra possibilidade é que a relação de afeto está intimamente ligada ao fato de manter uma identidade, ou a própria identidade, já que muito de suas lembranças se esvai em questão de segundos. Se isso ocorre, porque o seu nome não se perde neste processo?

A importância de falar o próprio nome e o do outro está no que acontece nessa vivência. Desde o primeiro encontro, em outubro de 2010, mudanças vêm ocorrendo entre as pessoas do grupo: sorrisos, olhos que se encontram, brincadeiras com comentários sobre a própria memória, caretas, frases como, por exemplo: “Não sei, não quero saber e tenho ‘reiva’ de quem sabe” ou “é muitos nomes eu não lembro de nada”. Surgem também associações com os nomes, como por exemplo, ela tem o nome da sua sobrinha ou o nome dela lembra aquilo que carregamos e que tem alça, que é uma mala, sugerido de forma criativa por uma das participantes do grupo para se lembrar do nome da Mara. Relação que se estabelece através da nossa escuta sensível e curiosa para conhecer mais de cada usuário em sua singularidade. Ocorreu um encontro em que uma das participantes que tem perda auditiva grave, ao se levantar junto com o coordenador para falar o nome dos idosos girou , fez um balbucio e disse ”pronto já falei o nome de todos”. Concluímos que através desta brincadeira houve uma conexão cognitiva com a falta da memória e a resolução desta dificuldade. Cenas como esta são comuns em cada encontro. Normalmente, a grande maioria dos usuários fala que não se lembra de nada, que não consegue guardar os nomes, mas quando começam, falam boa parte deles ou então lembramos a ela a primeira letra do nome e elas se recordam de imediato. Será que elas já se condicionaram a não pensar? Ou que dificuldade é esta? Por que alguns nomes ficam e outros não?

São questões ainda a serem exploradas e explicadas, se é que existe uma explicação lógica para o fato.
Percebemos, neste grupo, que alguns usuários são menos pacientes uns com os outros ou com a situação que possa ocorrer no grupo e no convívio no Centro Dia, isso independe do comprometimento da memória. Se isso ocorre, a doença instalada não parece ser o fator desencadeante do fato, o que às vezes é dito como justificativa para tudo que acontece. O que nos leva a crer que há uma singularidade preservada em todo esse processo e é isto que procuramos ativar, reforçar e preservar no nosso trabalho. Ou seja, há uma força de vida que é incentivada para que permaneça e pode ser um caminho rumo a menor dependência e até mesmo como incentivo à vida.

Reconhecemos diferentes dificuldades em cada um dos integrantes do grupo, tais como: comprometimento da atenção, linguagem, memória, tensão corporal, dificuldades motoras, surdez, sonolência excessiva, um jeito mais deprimido, e etc. São nessas dificuldades que se alojam a desqualificação da pessoa, oriundas do psiquismo social, relacionados com as deficiências e seus preconceitos. Essas questões são abordadas no grupo.

Segunda etapa – Trabalho com o Corpo

Fazemos convites para movimentos corporais, situando o objetivo e o significado, conectando aos sentimentos e emoções, abrindo espaço para o acolhimento das expressões advindas do acesso às memórias que se remetem ao sentido de pertencimento. Recorremos à teoria da Análise Bioenergética que se fundamenta no principio que o organismo é uma unidade, sendo a saúde também um conceito unitário. Existe uma identidade entre saúde física e mental. Entre saúde sexual e emocional. Uma ruptura nesta unidade provocara um desvio na integridade do organismo afetando a saúde em todos os seus níveis. (Exercícios de Bioenergética, pag. 45)

A Análise Bioenergética entende a personalidade em termos do corpo e seus processos energéticos, entendidos como a produção de energia através da respiração e do metabolismo e a descarga de energia no movimento são as funções básicas da vida. Em nível mais profundo no inconsciente, pensar e sentir são condicionados por fatores de energia. (Exercícios de Bioenergética, pag.11)
Os processos energéticos estão relacionados ao estado de vitalidade do corpo. Tensões musculares crônicas perturbam a saúde emocional, através do decréscimo de energia do individuo, restringindo sua motilidade (ação espontânea, natural e movimento da musculatura, limitando sua auto expressão). É necessário aliviar a tensão crônica para que a pessoa recupere sua completa vitalidade e bem estar emocional; um corpo vivo está em constante movimento, resultado de estado de excitação interna que irrompe continuamente na superfície em movimento, através de ondas pulsatórias que se desenvolvem e espalham pelo corpo (exemplo batimentos cardíacos, peristalse do intestino e clímax do ato sexual). A atividade vibratória é manifestação da motilidade inerente ao corpo, responsável por ações espontâneas, liberação emocional e funcionamento interno. Não está sobre controle do ego, é involuntário. Corpo vitalizado vibra e pulsa. (Exercícios de Bioenergética, pag. 12, 13,15 e 18)

Trabalhamos estimulando a força da voz, da respiração, braços, mãos, pernas e pés, conectando a sensação do corpo com os sentimentos. Denominamos esta parte do trabalho de “Exercícios Expressivos”. Por que este nome? Chamamos de exercícios expressivos porque além de incluir gestos corporais estimulamos para que eles falem uma palavra que dê sentido ao gesto, como sinônimo de força, tanto na expressão do gesto como no som, por exemplo: cerrar os punhos e dizer “não, não quero, chega” ou o oposto disto: “sim, quero, é meu, eu posso, eu quero”.

Nesses exercícios, tem se desenvolvido um nítido diferencial no tom da voz: mais alta e mais forte. Alguns se emocionam, falam de sentimentos de raiva, angústia, tristeza, memórias infantis, fatos ocorridos recentemente no seu cotidiano.

Em uma atividade onde trabalhamos com uma espuma roliça com a qual eles teriam que bater em uma cadeira e dizer uma fala do tipo “chega”, uma das cuidadoras da casa sugeriu que eles batessem e falassem o nome do filho que cuida deles. Para nossa surpresa o som saiu mais alto e a força também foi mais intensa com esta consigna. Este acontecimento pode estar ligado ao fato deles um dia terem exercido seu papel de autoridade e hoje estar em um lugar mais dependente da pessoa que cuida deles, de se virem sem toda a autoridade que um dia possuíram e de se sentirem diminuídos. Relacionamos tal fato a esta mudança de papéis. Memória que não esta consciente, mas que está impressa no seu corpo e na sua musculatura e vice-versa.

Percebemos como resultado do trabalho corporal um afrouxamento da defesa do medo de contato que aparece através da disposição para abraçar e dizer o quanto é prazerosa a nossa presença e atividade. Diminuição de timidez que tanto pode estar ligada a falta de contato como a um estado de depressão. Surgiram também questionamentos de como lidar com os sentimentos percebidos em casa com a pessoa que cuida, por exemplo, como expor o afeto para uma filha e não ser correspondida.

O sentimento de pertencer ao grupo foi paulatinamente se desenvolvendo. Um exemplo marcante para nós expressou-se na seguinte situação: Uma usuária de 90 anos com diagnóstico de Alzheimer sofreu uma queda em casa e estava com dores na coluna, precisava sentar-se em uma poltrona que estava fora do circulo do grupo. De onde estava manteve a atenção na atividade, se incluía por brincadeiras e mesmo com limitações fazia o que era possível.

No inicio deste ano fizemos uma alteração no modo de iniciar o trabalho. Até então começávamos falando os nomes. Percebemos que muitos ficavam sonolentos – por nossa atividade ser logo após o almoço. Após discutirmos esta questão surgiu a ideia de iniciar pelo trabalho corporal, visando uma maior participação dos usuários e com a hipótese de que trabalhando com o distensionamento corporal, reforçando o grounding , aprofundando a respiração, junto com trabalhos expressivos tanto a participação como a memória estariam mais ativados. O que estamos observando até o momento é que eles ficam mais atentos quando estamos fazendo o trabalho corporal. Tem um usuário que ainda dorme muito, talvez pela perda auditiva e medicação, porém tem outro que também tem grande perda auditiva, mas que não tem dormido.

Finalizamos o grupo em circulo, com as mãos dadas e em pé. Aleatoriamente um dos usuários inicia dando um beijo no rosto da pessoa ao seu lado que vai passando até chegar à pessoa que iniciou e este volta pelo lado oposto. O nosso objetivo de estimular o contato e a expressão do afeto é acolhido pelo grupo que demonstra interesse e prazer na atividade. Duas usuárias do grupo com sequela de AVC pedem ajuda para levantarem- se e participarem da roda do beijo.

Trabalho Com as Cuidadoras.

Desde nosso primeiro contato com o grupo, tivemos a presença amiga das Cuidadoras, quatro mulheres que têm em comum a sensibilidade, acolhimento, respeito no trato com eles, apoio e bom humor.

Com o objetivo de conhecê-las, saber como se tornaram Cuidadoras, o que consiste de fato seu trabalho e fazê-las parte integrante desse projeto utilizamos, como estratégia, a realização de uma entrevista baseada em um questionário elaborado por nós. Essas entrevistas possibilitaram entendê-las melhor. Para nossa surpresa elas não possuem formação acadêmica ou qualquer curso na função de cuidadora. Duas delas tem curso de auxiliar técnico de enfermagem e uma tem o ensino fundamental. Adquiriram o conhecimento como cuidadora através da pratica na casa, por cuidar de idoso na própria família e por afinidade. Acreditam que a mente não envelhece, apontam o preconceito sobre o envelhecer como influencia da maneira de viver esta fase, ou seja, há pessoas que olham para o envelhecer de uma maneira muito ruim, e outras como uma grande experiência de vida. Uma delas trouxe a preocupação de se os filhos cuidariam dela ao envelhecer. Muito provavelmente, devido à experiência vivida no Centro Dia, percebem que nem todos os filhos estão presentes no cuidado com os pais.

Todas as Cuidadoras cuidam de todos, fazem rodízio entre elas conforme as necessidades do grupo. Além das orientações da diretoria e dos profissionais ajudam-se mutuamente sobre as condutas que possam facilitar o cuidado e a relação com os idosos, trocando as experiências que produzem melhores resultados. Exemplo “quando T fica agressivo no grupo, saio com ele e falo de outro assunto até ele se acalmar”. Demonstram conhecer a singularidade de cada um como gostos, estados de humor, como se relacionam, observando mudanças de qualquer ordem, havendo um cuidado para estimular e não impor a participação nas atividades. Além de cuidados pessoais realizam atividades lúdicas e recreativas (Canto, jogos, alongamento). No trato diário com o idoso elas relatam como ganho pessoal maior paciência de perceber o tempo de cada um e a forma de abordagem com eles, ou seja, o conhecimento está associado ao ato do fazer, aprendendo a se relacionar com a especificidade de cada um. Trazem a necessidade de saber mais sobre a saúde e o diagnóstico de cada usuário do Centro Dia, cursos de reciclagem e desejo de maior integração com a equipe de profissionais da casa.

Na nossa visão, elas são parte importante da equipe multidisciplinar para compor um olhar que integre a diversidade de cada usuário. São as profissionais que mais tempo passam com os usuários, percebendo alterações no comportamento e no estado geral de saúde e, segundo elas, não encontram respaldo tanto na coordenadoria como nos demais profissionais técnicos. Por serem elas que recebem o usuário na sua chegada ao centro Dia, percebem como eles estão e levantam a hipótese do estado, que se encontram no dia, a partir da relação que mantém com o filho e/ou familiar que deles cuida. Relataram sentir que é comum, por parte de alguns filhos dos usuários, que deleguem a elas funções que não lhes são próprias, por exemplo, não as ajudam a tirar ou colocar os idosos dentro do carro e nem os acompanham até a casa nos casos em que há dificuldade de locomoção.

Em relação ao nosso trabalho elas relatam melhora no humor dos usuários, assim como também maior disposição e participação na atividade que desenvolvemos, diferentemente de outras atividades. Elas se integram e participam junto com os idosos no trabalho que estamos desenvolvendo, trazem comentários e procuram aplicar no dia a dia com eles.

Trabalho Com os Familiares

O contato com a família se deu pela necessidade de ampliar o conhecimento de cada pessoa do grupo através da relação familiar; como esse vínculo está presente nos seus aspectos subjetivos: pertencimento, reconhecimento do outro, sustentação do si mesmo e do corpo familiar, ou seja, como esta família se compõe (membros da família), quem participa e como participa no cuidado do idoso. Assim como integrar no nosso trabalho a escuta da família em suas dificuldades e necessidades, abrindo caminhos para intervenções que possam propiciar a continuidade do desenvolvimento pessoal e familiar dos idosos assistidos pela AFAI.

Elaboramos um questionário (em anexo) como ponto de referência para o nosso objetivo – de sermos ambientes facilitadores na ajuda à família/ cuidadores dos idosos, desenvolvendo instrumentos para lidar com os conflitos advindos desta situação.

A nossa entrevista se deu juntamente com a aplicação de medidores de resiliência e outros aplicativos, que tinham como objetivo apresentar os resultados dos benefícios à família oferecidos pela AFAI junto ao banco Santander que atualmente patrocina o projeto através do prêmio Talentos da Maturidade na categoria Trabalho de Excelência.

Por circunstâncias como limite de tempo e possibilidades pessoais das famílias entrevistamos 9 (nove) familiares em um total de 15 (quinze). As entrevistas eram marcadas situando os objetivos que consistiam na coleta de dados e integração da família com o trabalho que nós desenvolvemos com os idosos. Algumas foram feitas pelos dois coordenadores e outras separadamente. O contato com estes familiares e informações obtidas das outras famílias nos trouxeram alguns pontos em comum:

1. A responsabilidade de cuidar do idoso fica só para uma pessoa, mesmo quando há dois ou mais filhos. Essa tarefa continua sendo feminina, pela crença de ainda ser função de filha, mas na grande maioria é devido aos outros membros da família se eximirem da responsabilidade. Esse é um fator importante de desentendimento familiar onde aparecem acusações, culpas, brigas e rompimentos de laços afetivos. Há dois casos em que o cuidador é homem, um é o esposo que tem apenas um filho homem e o outro possui dois irmãos também dependentes.

2. A percepção das mudanças de comportamento ligada à alteração de memória se deu nas situações do cotidiano tais como: esquecimento de comida estragada na geladeira, fogo aceso, esquecimento de ter se alimentado, desorientação espacial, diálogo repetitivo, quadro intenso de depressão ligado à perda por falecimento de cônjuge ou filho.

3. Relatos de demora em procurar tratamento devido a crenças culturais de que tais fatos pertencem naturalmente ao envelhecer.

4. Frente ao diagnóstico de dependência começam a surgir sentimentos de medo, angústia de como cuidar do familiar sem abrir mão das próprias necessidades (trabalho e lazer), tempo despendido no cuidado, aumento dos gastos financeiros, alterações do desenvolvimento da vida pessoal, desamparo dos poderes públicos, dificuldade de cuidar devido à intensificação de conflitos familiares por sobrecarga de responsabilidade.

5. Cuidar como preenchimento de vazios pessoais.

6. Colocar os pais na AFAI atende principalmente à necessidade de não institucionalizá-los e perder o vínculo afetivo. Tranquilidade para desenvolver tarefas pessoais, atendendo a demanda de não deixar o idoso sozinho em casa, ter convívio social e atividade diária bem como confiança nos cuidados oferecidos.

Pela nossa observação e informação da diretoria da casa a maioria dos familiares participam no Centro Dia de várias maneiras, seja ajudando na mudança (acabaram de mudar de endereço), consertando roupas para o bazar, venda de rifas, comparecimento em datas comemorativas (aniversário da AFAI, natal, palestras do corpo técnico entre outros).

Considerações Finais

A presente análise clínica tem se mostrado para nós um campo fértil.

O apoio nas teorias Do Amadurecimento Pessoal de Winnicott e da Análise Bioenergética de A. Lowen nos deram sustentação para o desenvolvimento de um trabalho de estimulação e suporte do si mesmo em suas facetas e diversidades.

A teoria boa é aquela que vem da prática e volta para ela (Guntrip, H.). Nesse sentido, está claro para nós que o foco, na relação fortalecendo vínculos afetivos, é força importante na integração de um eu que foi atravessado por situações de vida que provocaram falhas no desenvolvimento. A nossa cultura se refere à identidade apoiada principalmente nas funções cognitivas e no desempenho funcional. Acreditamos que a comunicação e o desenvolvimento do si mesmo acontecem por muitos caminhos, mas é na vivência das relações que ela se concretiza em uma construção a cada encontro. É uma experiência que instiga e que nos põe em contato com sentimentos sobre o envelhecer, a multiplicidade do ser, a necessidade de apoio na fragilidade e na singularidade da natureza humana.

Entendemos que a parceria: profissionais, coordenadoria, familiares, cuidadoras e voluntários são as bases de sustentação para a continuidade de cada pessoa do grupo no seu caminho de desenvolvimento que só se finda na morte.

Todos nós somos protagonistas desse caminhar que pouco tem de referências bibliográficas e até mesmo da prática. Faz-se necessário: trabalho terapêutico com as famílias, reuniões da equipe multidisciplinar, assessoria as cuidadoras, desenvolvimento de uma metodologia de trabalho do Centro Dia para que se crie uma referência para outros equipamentos de saúde que possam surgir.

Referência Bibliográfica

Cotta, Jose A.M. O Alojamento da Psique no Soma, segundo Winnicott, tese de mestrado. São Paulo, 2003.
Gishitomi, T.A. O Significado do Centro Dia no Olhar dos Familiares de Idosos: Uma Abordagem Qualitativa da Fenomenologia Social. TCC do curso de graduação em Gerontologia – USP, 2009.
Lowen, Alexander. Bioenergética – Summus Editorial – 9ª edição. São Paulo, 1982.
Alegria –
O Corpo em Terapia –
Lowen, Alexander, Lowen, Leslie. Exercícios de Bioenergética, o caminho para uma saúde vibrante – Editora Agora – 3ª edição.
Vono, Zulmira Elisa. O bem no mal de Alzheimer – São Paulo. Editora Senac São Paulo, 2009.

Anexo 1

Entrevista com os familiares

1. Nome do idoso e grau de parentesco. Quantos filhos o idoso tem?
2. Quando percebeu que começou a mudança de comportamento? Quais foram essas mudanças?
3. Idade.
4. Além do Alzheimer, qual outro problema de saúde? É em decorrência do Alzheimer?
5. Há quanto tempo está com o diagnóstico?
6. Como era o comportamento antes do Alzheimer?
7. Qual é o sentimento da pessoa e da família diante do diagnóstico?
8. Como a família cuida do idoso? Todos ajudam? Se não, por quê?
9. Há quanto tempo frequenta a AFAI?Já esteve em outra instituição ou centro dia?
10. Quais os benefícios que você observa?
11. Já tinha conhecimento deste tipo de doença antes do fato ocorrido?
12. Por que escolheu a AFAI?
13. Quais os suportes que você tem para lidar com esta situação, além da AFAI?
14. Como é o dia-a-dia da família? O idoso participa dessas atividades?
15. Quais as autonomias que o idoso tem em seus cuidados pessoais?
16. Tem convivência social além da AFAI?
17. O idoso tem consciência das perdas cognitivas e/ou limitações?

Anexo 2

Entrevista com as cuidadoras

01. Nome
02. Idade
03. Sexo
04. Há quanto tempo trabalha como cuidadora? E na AFAI?
05. Como você ingressou na AFAI?
06. O que é ser cuidadora para você?
07. Fez algum curso para ser cuidadora?
08. O que te motivou a trabalhar como cuidadora?
09. O que você pensa sobre o envelhecer? E o que você sente?
10. Você acredita que a demência é proveniente da idade? Por quê?
11. De quem você cuida na AFAI? Como é a sua relação com esta pessoa?
12. Você tem contato com os familiares do idoso? Com qual frequência? Se não por quê?
13. O que sabe sobre a história de vida do idoso?Quem informou? Para você é importante saber?
14. O que você sabe sobre a saúde física de cada idoso?
15. Quando há dificuldades com algum idoso, qual o procedimento a ser utilizado? Quem orienta este procedimento? Suas ações neste sentido são valorizadas?
16. Quais são as atividades que você desenvolve com os idosos? Qual você mais gosta? E por quê? E os idosos?
17. Que mudanças você percebe no idoso desde que você trabalha com eles? E o que foi acontecendo com você?
18. Como você percebe o relacionamento entre os idosos? Como é a sua relação com eles? O relacionamento entre os idosos é estimulado? Que condições se dão para que isso aconteça?
19. O idoso escolhe o lugar que ele senta? Você faz alguma sugestão de lugar?
20. Em relação ao nosso trabalho você percebe alguma mudança no idoso? Qual? Por quê?
21. Como é a sua relação com os outros profissionais que trabalham na casa? Como se dá esta relação? E o que acontece?
22. Que recursos a mais poderia ter na casa para facilitar o seu trabalho?

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