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Zeneide e eu, zeneide e(m) nós

Um sinal, uma porta para o infinito, o irreal

Zeneide e eu, zeneide e(m) nós

Um sinal, uma porta para o infinito, o irreal

O que pode um corpo?
Como estamos experimentando a potencia dos nossos corpos?
O que pode um encontro?
Que vida estamos produzindo para nós?
Qual é a ética dos nossos afetos que nos move?

Impossível pensar na nossa amiga Zeneide sem abrir estas perguntas ressoando com ela e com sua ética vital.

Isso te incomoda?

Zeneide foi pensamento em ação. Seu pensamento instigante descolocou a todos os corpos de seus lugares comuns.
A primeira vez que escutei sua voz foi no ano 2001, convidando-me a participar das Jornadas Reich no Sedes. Por não conhecê-la, lhe perguntei em nosso primeiro contato telefonico, quase obsessivamente, pelos detalhes do convite: passagem, estadia, honorários, etc. Me disse com um tom irónico: “Luís nada disso. Este convite não vai aumentar a tua conta bancária. Porém queremos conhece-lo pessoalmente e que estejas conosco nestas Jornadas. Para nós seria mais do que gratificante conhece-lo e fazer uma troca de afetos”.
Esses passaportes sem pernas que são os livros a haviam incitado a chamar-me, depois de ler o meu livro Arqueología del cuerpo. Uma colega que havia me conhecido no Congresso de Psicoterapias Corporais em Curitiba, lhe disse: “este presente é para ti, vc vai gostar muito”. E assim foi. Desde este telefonema, que já vinha marcado pela pré-transferencia da leitura de Arqueología del cuerpo, gerou um potente rizoma, um agenciamento maquínico, como poucas vezes vivi em minha vida.
Na era do contato sem tato nos conectamos Zeneide e eu a partir de uma rede entrelaçada por fios invisíveis e naturais. E este encontro provocou em ambos, fissuras inesperadas no solipsismo confortável do dia a dia.
Quando ela foi me buscar em Guarulhos me olha e comenta: “pensei que eras mais alto”. Eu permaneço em silencio. “Te imaginava mais alto… pelo que escreves”, retruca com um sorriso burlão. Eu fiquei um pouco atônito pela recepção mordaz. Estava me encontrando com uma esquizoanalista de peso e como um primeiro “oi” me arengava que minha escrita não correspondia a minha estatura. Wtf! Diante do meu dar de ombros capta a minha gramática expressiva de perplexidade e me pergunta: “isso te incomoda?” Com o tempo entendi que esse era o batismo-Zeneide. Assim te marcava o espaço. Esta pergunta (isso te incomoda?), implicitamente ressoava cada vez que ela, com sagacidade e ironia, atirava seus dardos inteligentes, porém sempre com suavidade, ternura e amizade.
As primeiras 72 horas do nosso primeiro encontro se sucederam quase sem dormir. Entre vinhos e cachaça, jornadas acadêmicas e encontros dançantes com as demais colegas da SOBAB e do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae passavam as horas em vibrante vertigem. Assim foi que descobri que as velocidades vibram! Em meu precário portunhol tinha que poder me ajustar à velocidade do seu pensamento, e sem poder dormir!

O que pode e encontro?

Com Zeneide encontrei uma das melhores aliadas para remover toda camada de concreto-moral da minha existência. Esse encontro me obrigou a problematizar a arquitetura do meu próprio cativeiro. Creio que juntos construímos um bonito grupo-sujeito. Foi minha melhor aliada para combater todo o pensamento que cheirasse ao fedor moral. Nisso fomos implacáveis.
Uma característica absolutamente singular é que o encontro com Zeneide sempre deixava uma marca. Quando a trouxemos para trabalhar no Uruguai e a nomeamos membro didata do TEAB sua marca foi impactante: construiu um corpo vibrante no nosso coletivo.
Sua marca ética implicava a capacidade de confrontar-nos com a nossa diferença. Como o fazia? Questionando nossas certezas e ao mesmo tempo revelando nossas belezas.
A partir do pensamento gerava, como poucas pessoas, a possibilidade de experimentar o corpo intensificado, para que pudéssemos colocar em análise a nossa própria diferença.
Seu olhar produzia rapidamente micro capturas na potencialidade dos encontros. Estar no campo do seu olhar implicava numa sentida inseparabilidade entre criação e destruição. Zeneide, em questão de segundos, podia descrever, assinalar e interpretar os sentidos que pulsavam por debaixo das nossas máscaras caracteriológicas e sociais. Que desafio era conversar com ela! E que belas noitadas se passavam na sua casa da rua O. Freire, em Pinheiros! Para mim o mais impactante era escutar suas perguntas que, em geral, dilaceravam e colidiam com os escudos que nos protegem, e que nos separam da vida pulsante e desviam, bloqueiam e ligam ao nosso desejo em agenciamentos sedentários ou mórbidos.
Fazendo a genealogia do nosso histórico compartilhado (na Universidade ela vinha de uma militância trotskista e eu da militância libertária), ela em SP, eu em Mvd aprendemos a fazer dialogar os nossos mestres Reich e Lowen, a Keleman e Boadella, com Deleuze e Guattari, com Lourau e Lapassade, com Nietzsche e Espinosa. Nestes diálogos apostamos em combater o microfacismo que se corporifica pela negação das diferenças, atualizando nossas teorias para dar consistência as nossas práticas.
A complexidade, a sutileza e a profundidade desse aprendizado às vezes me separava dela. Num dado momento, tive um insight, e me dei conta de que estes estados se efetuavam em mim quando sentia, nas nossas discussões, a ameaça da estabilidade do meu território existencial. Para falar com Zeneide tinha que se permitir estar “entre” os corpos. Tinha que poder misturar as vozes, tinha que permitir-se um devir-outro, ser-outridades, ser-ninguém: nenhum autor, nenhuma idade, nem um gênero, nem um título, nem uma especialização. Tinhas que desfazer tua identidade e tua rostidade.

Que vida estamos produzindo para nós?

Dentro do seu ethos esta pergunta é chave para pensar como habitamos e somos atravessados pelo campo imanente das forças, da linhas que se agenciam nos nossos encontros interatuando na potencia de afetar e ser afetado pelos vínculos e pelas instituições.
Zeneide portava em si mesma, a melhor tradição dos cínicos. Era muito irônica. Sem poder jogar com esse traço de caráter dela, não se podia desfruta-la. Te desarmava a partir da ironia. Recordo uma piada que a define. Quando soube que, logo depois da minha separação, que eu estava saindo com mulheres cada vez mais jovens, me disse: “Luís, vc tem um problema”. Ah sim, qual é Zeneide?, perguntei confrontando-a. “Luís… o seu problema é que elas não param de nascer”. Certeira! Assim era Zeneide: sem cinismo e ironia não havia encontro possível. Porém em nenhum momento necessitava negar o outro para afirmar a si mesma. Sempre buscou afirmar a crença na diferença, em cada momento singular.
Seus questionamentos mais radicais eram dirigidos a análise de nossas implicações: as práticas profissionais e os discursos teóricos e acadêmicos que não atuavam para a intensificação da potencias dos devires.
Sua postura ética teve uma enorme disposição para o encontro e uma indisposição para o poder.
Recordo uma de suas frases que me disse au passant e que guardo como um de seus ensinamentos mais preciosos: ‘é preciso desviar do já acontecido e acontecer… (ou até mesmo desacontecer)”.

O que pode o corpo? Como estamos experimentando a potencia do nosso corpo?

Zeneide se deixou apaixonar pela potencia dos encontros, dos afetos, dos devires com um único objetivo: afirmar uma vida potente. Não lhe foi fácil em sua vida pessoal. Sua potencia era tal que por momentos o seu amor matava o que amava, ou melhor, o distanciava. Essa era a marca da sua fragilidade.
Nos momentos em que, vibrante, estava aberta ao contato, produzia vida nos encontros, fundamentalmente através do cinema, da música, da fotografia, da literatura. Nunca deixamos de nos presentear música e literatura; nunca deixamos de comentar e compartilhar filmes. Era nossa forma de produzir agenciamentos coletivos, de produzir redes rizomáticas. Uma noite de papo com Zeneide era viajar através do movimento do pensamento produzindo caos e cosmos, transversalizando dicotomias, operando por relações de velocidade, longitude e latitude através da arte. E daí à filosofia, passando pela clínica e desembocando nas micropolíticas do desejo.
Sua palavra ia muito mais além de si, às vezes desobedecendo a quem a enunciava, sua fala era sempre coletiva, multiforme e polissêmica, contrariando a uniformidade e as formas que adotava seu eu (às vezes uma tristeza calada, uma raiva indigesta, prazer inibido ou isolamento na solidão).

A ética e a potencia dos afetos

Se há encontros que reduzem nossa capacidade de agir e nos despotencializam, negando nossos devires ativos, subtraindo nossa potencia e produzindo modos sedentários de existir, o encontro com Zeneide é um acontecimento de multiciplidade da vida. É pura possibilidade. Produz modos de existir, de falar, de pensar, de sentir e de agir que desfazem nossas ilusões e certezas. Nossas cacofonias. Impossível de se programar.

Se o que cura é o afeto, me curastes desde a tua potencia amiga! Permitindo-nos, a cada um, sair de si, abandonar, ainda que momentaneamente, nossos narcisismos empobrecidos.
Nesta viagem, assumes um rosto diferente, mais fluído, deslizando entre micro composições. Nascestes há 10.000 anos atrás. Já não tens órgãos. Estás feita de vento. Existes, porém ninguém te vê. Habitas nos nossos corações, que ao te recordar vibram com pura intensidade. Obrigada por tanto, amiga da alma.

Estejas onde estiveres te imagino dizendo: “nós que aqui estamos, por vc esperamos, aproveita a viagem”.

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