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Obesidade: Fome de Quê? – Uma Visão Bioenergética.

Álvaro Soares Pinto Fernandes *

INTRODUÇÃO

obesidade_face_1Venho acompanhando pacientes obesos ao longo dos últimos 25 anos como analista bioenergético. No início desta década, desenvolvi um trabalho experimental de acompanhamento individual e em grupo com indivíduos obesos, junto com a nutricionista Regina Sarmento, no Rio de Janeiro. Atualmente, no âmbito da Clínica da Sociedade Brasileira da Análise Bioenergética – SOBAB-SP – vem sendo desenvolvido o Projeto Obesidade, com a proposta de aprofundar os estudos sobre o tema e de montar grupos de apoio a obesos em busca de um emagrecimento consciente e mais consistente.
O trabalho que se segue é fruto da experiência adquirida ao longo desses anos.
Março de 2009

OBESIDADE: UM PROBLEMA DE PESO

A população mundial está ficando obesa. A Organização Mundial da Saúde estima em mais de 300 milhões o número de obesos e os dados indicam uma curva de crescimento vertiginosa. Até os países asiáticos, que pouco tempo atrás apareciam com registros pequenos de casos, têm apontado um aumento alarmante do número de pessoas acima do peso ou obesas, na medida em que suas populações vão sendo influenciadas pelos valores e modo de vida ocidental.

Vivemos numa cultura em que o TER se sobrepõe cada vez mais ao SER, em que TEMPO é DINHEIRO e essas exigências da modernidade nos tornam cada vez mais estressados. Neste contexto, sem tempo para nos dedicarmos à arte de cozinhar, o alimento nos tem sido oferecido cada vez mais pobre em valores nutricionais e cada vez mais rico em praticidade, aparência e paladar. Tudo muito bem embalado, com muito açúcar, muito sal e muita gordura. Além disso, não temos mais tempo para desfrutarmos do que Leonardo Boff chama de COMENSALIDADE1. Salvo em raras exceções, a família não se senta mais à mesa, nos alimentamos cada vez mais rapidamente, sozinhos, em pé, nos transportes coletivos, na frente da TV ou do computador. Tudo muito rápido, tudo muito prático. E engordativo.

As estatísticas referentes à obesidade no Brasil mesmo que ainda não apresentem resultados tão alarmantes como no primeiro mundo, também preocupam. Segundo dados de 2003 do IBGE2, 40% das pessoas com mais de 20 anos têm excesso de peso e destes, mais de ¼ são consideradas obesas.

Meu interesse pelas questões relativas à obesidade na clínica psicoterápica surgiu a partir da observação de que pacientes gordos ou obesos dificilmente traziam como queixa seu estado corporal. Falavam de isolamento, solidão, dificuldades em se relacionar afetiva e sexualmente, mais omitiam o que seu corpo “dizia“. Tratar diretamente da obesidade produzia fortes resistências e até abandono do tratamento. A estratégia, então, era trabalhar em cima de suas queixas até que eles conseguissem estabelecer a relação entre elas e seu esquema corporal. Isso demorava tempo.

Nos últimos anos, com a exposição cada vez maior na mídia das questões relativas à obesidade, esse quadro foi se modificando. A preocupação com as doenças associadas a ela fez com que as pessoas começassem a trazer seu corpo obeso para o foco do processo terapêutico. De alguma maneira eles entendiam que havia um componente emocional que boicotava suas tentativas de manter o peso que perdiam em seus programas de emagrecimento. Mas as dificuldades para trabalhar com eles não diminuíram. Como veremos adiante, por mais sincero que seja seu desejo de emagrecer, abrir mão da camada de gordura que os envolve e dos hábitos que a sustentam é por demais ameaçador.

– OBESIDADE E BIOENERGÉTICA

Obesidade é definida como uma doença na qual a reserva natural de gordura aumenta até o ponto em que passa a estar associada a certos problemas de saúde ou ao aumento da taxa de mortalidade. É determinada por uma combinação de vários fatores e um tratamento adequado deve incluir acompanhamento multiprofissional, com médico, nutricionista, preparador físico e psicoterapeuta atuando em conjunto, sempre que for possível.

Para Terezinha Belmonte3, endocrinologista, a obesidade deve ser entendida como uma questão psicológica, corporal, social e energética. Sustenta que o emagrecimento só será conseqüente se o paciente abandonar as propostas mágicas que envolvem as dietas em geral, o uso indiscriminado de medicamentos e as promessas de felicidade das cirurgias bariátricas e assumir seu próprio processo. É neste contexto que a Análise Bioenergética pode ajudar o indivíduo obeso em sua busca por uma vida mais saudável e prazerosa.

Análise Bioenergética é uma técnica terapêutica desenvolvida por Alexander Lowen (1910 – 2008), baseada na “Análise de Caráter”4 de Wilhelm Reich, de quem foi paciente e aluno na década de 40 do século passado. Nela, Reich propunha haver uma identidade funcional do caráter de uma pessoa com sua atitude corporal ou couraça muscular, entendida como um padrão geral das tensões musculares crônicas do corpo, erguida para proteger a pessoa contra experiências emocionais dolorosas e ameaçadoras.
A Análise Bioenergética combina o trabalho com o corpo e com a mente, utilizando a técnica analítica, procedimentos de manipulação e exercícios especiais. Para Lowen, os processos energéticos do corpo determinam o que acontece na mente, da mesma forma que determinam o que acontece no corpo5.

Bioenergeticamente, a obesidade pode ser definida como um distúrbio da relação carga x descarga do organismo. A equação é simples: entra mais do que sai. A pessoa obesa absorve mais do que gasta, do que elimina. O que é excedente, no caso do alimento, se deposita no corpo na forma de gordura. Emocionalmente, esse distúrbio é manifestado pela dificuldade que a pessoa tem de expressar seus sentimentos, pela sua agressividade precária e pela voracidade com que ela “engole sapos”, como veremos mais adiante.

O indivíduo obeso tem, predominantemente, o traço de caráter oral6 em sua personalidade. A experiência básica do caráter oral é a carência afetiva, que ele procura preencher apoiando-se nos outros e, no caso dos obesos, substituindo em parte o contato com os outros pela comida.

Embora Lowen afirme que o indivíduo oral tenda a ter um corpo esguio e fino, com musculatura subdesenvolvida, a constituição do corpo obeso pode ser entendida a partir da observação de que, em certas pessoas, a tendência a depender pode aparecer disfarçada pela ação de atitudes conscientemente compensatórias como, neste caso, pela ingestão constante de alimentos.
A personalidade oral contém muitos traços típicos da primeira infância. Esses traços se tornam claros nos obesos quando se observa que os corpos do homem e da mulher perdem em parte as características sexuais secundárias que se desenvolvem a partir da puberdade e em muito se assemelham ao corpo de um bebê “fofinho”. O nível de excitação genital é reduzido e se evidencia pelo fato de que a busca pelo prazer ainda está em parte ancorada no ato de se alimentar.

Muito embora a obesidade possa vir a se manifestar somente anos mais tarde, é a partir da relação mãe x filho no período da amamentação que ela tem origem.

Ashley Montagu2, analisando a qualidade do contato entre mãe e filho, sustentava que uma íntima relação se tece entre comer e amar na primeira infância e que comer pode se tornar uma satisfação substituta para o amor. A obesidade seria, então, a evidência de uma frustração amorosa.

A ausência da amamentação ou o desmame precoce parecem ser determinantes da obesidade. Dois estudos sustentam essa hipótese;

1- Siqueira e Monteiro8, ao analisar a associação entre o aleitamento materno na infância e a obesidade na idade escolar em crianças e adolescentes de famílias brasileiras de alto nível socioeconômico, concluíram que as que nunca receberam aleitamento têm maior ocorrência de obesidade. Os resultados da pesquisa apontam para um risco de obesidade duas vezes maior na ausência de aleitamento.

2- Balaban e Silva9 fizeram uma revisão da literatura sobre a hipótese de que o aleitamento materno teria um efeito protetor contra a obesidade. Como a grande maioria dos estudos revisados relatou um efeito protetor, concluem que o aleitamento parece proteger as crianças da obesidade, embora sugiram uma investigação mais profunda do caso.
Entre as várias questões relativas à obesidade que podem ser trabalhadas na Análise Bioenergética, duas serão vistas aqui; dizem respeito à mastigação e ao comer compulsivo.

Mastigação 

Nossa digestão começa pela boca. Mastigar bem os alimentos, triturá-los e misturá-los a saliva é o início do processo digestivo. O alimento desce, então, já preparado para ser metabolizado pelo organismo. Pois bem, o obeso mastiga muito pouco, praticamente engole o alimento. Isso sobrecarrega o processo digestivo, que se torna mais lento e favorece uma absorção maior pelo organismo do bolo alimentar. O estômago se dilata para conter tantos “pedaços“ do alimento mal processado.

Por que o obeso mastiga pouco? A resposta a esta questão nos remete à relação mãe X filho na época da amamentação. Uma mãe suficientemente boa, como diria Winnicott, ao amamentar seu filho está oferecendo dois elementos essenciais à vida dele: o nutricional (leite) e o afetivo (contato, calor, amor). Um distúrbio grave nessa relação provoca uma forte reação de defesa por parte do bebê que, ameaçado por um colo frio de uma mãe desconectada ou ausente na relação, pode responder, por exemplo, mordendo o seio. O ato de morder frente a uma ameaça é comum a toda espécie animal, inclusive entre nós humanos, pelo menos nos primeiros anos de vida. Basta uma visita a uma creche ou uma pré-escola para que se observe que, muitas vezes, os conflitos entre as crianças são resolvidos à base de mordidas.

Se a reação da mãe à mordida de seu filho for agressiva e raivosa, o bebê se sente mais ameaçado ainda e, culpabilizado, para sobreviver, congela a sua raiva (e o morder). A amamentação pode ter continuidade, mas tenderá a ser destituída do elo afetivo que unia mãe e filho. O bebê, tendo perdido o alimento-afeto passa a investir no alimento-leite, numa busca desesperada por amor. Já não reclama e não mais morde. Este pode ser um dos fatores que levem ao desmame precoce.

Como o ato de morder e o de mastigar são semelhantes e envolvem os mesmos músculos e articulações em torno da boca, se o morder está reprimido, a mastigação fica comprometida e assim o processo digestivo como um todo.

A Análise Bioenergética dispõe de uma gama de exercícios que estimulam o morder e a expressão da raiva reprimida. Uma toalha de rosto torcida colocada em frente à boca é um deles. Pede-se ao paciente, deitado no colchão e com os joelhos flexionados, que experimente morder a toalha por alguns minutos, cada vez com mais força e procurando emitir um som enquanto morde. Certa vez uma paciente realizando esse exercício foi tomada por um sentimento intenso de raiva. Ao encorajá-la a expressar em palavras o que estava sentindo, começou a gritar: “Por que você não olha pra mim?”. “Olha pra mim!” Ao fim do exercício relatou uma lembrança em que ela, pequena, esperava pela atenção da mãe, que nunca vinha. Completou dizendo que sua mãe não costuma olhá-la nos olhos quando fala com ela. Certamente, também não olhava para ela quando lhe dava a mamadeira.

O comer compulsivo

Todo obeso sofre de compulsão por comer. Ingere alimentos numa quantidade muito maior do que a necessária para seus gastos energéticos. Apesar disso, ele parece “precisar” de tanta comida. De onde vem essa necessidade e para que ela serve?
A resposta para a primeira pergunta já foi dada: o obeso come em busca do amor perdido. Ele se enche de comida na tentativa de preencher o vazio afetivo que sente. Quanto à segunda pergunta, a observação do mundo animal pode nos ajudar a encontrar a resposta.

Nas regiões polares, o comportamento alimentar dos animais está diretamente associado às duas estações do ano: o verão e o inverno polar. É no verão, com a fartura de oferta, que os grandes predadores se alimentam. Comem o máximo que podem. Sua dieta altamente calórica faz com que uma espessa camada de gordura se forme em torno de seus corpos. Eles precisam dessa gordura para sobreviver ao inverno, quando cessa a oferta de alimentos e o frio é rigoroso. E, então, eles hibernam. Toda gordura adquirida ajuda-os a atravessar esse período. Protege-os do frio intenso e vai sendo pouco a pouco queimada pelo organismo.
Dada a sua estrutura de caráter predominantemente oral o indivíduo obeso tem fome: fome de amor, de calor humano, de ternura, do aconchego perdido. Interiormente, ele sente frio.

Indagados sobre seus hábitos alimentares muitos pacientes afirmavam que não comiam muito nas refeições, que não era para eles serem gordos assim. Um exame mais detalhado, porém, desmascarava esse discurso: ao longo do dia entre as principais refeições eles beliscavam e muito. Snacks, salgadinhos, bolachas, doces, tudo o que estiver ao alcance das mãos. Tudo altamente calórico. Esse hábito, que muitas vezes passa despercebido por eles mesmos, ajuda a aquecê-los internamente, pois mantém o aparelho digestivo funcionando ininterruptamente e, tal como uma máquina, produzindo calor.

O comer compulsivo pode se manifestar também na forma popularmente conhecida como “ataque noturno à geladeira”. Na calada da noite, quando cessam as exigências do dia-a-dia, o indivíduo é tomado por uma necessidade incontrolável de comer tudo o que estiver ao seu alcance, até se entupir de comida. Parece claro que essa ação tem por objetivo “calar” os anseios que tendem a vir à tona naquele momento em que a quietude favorece um contato mais profundo consigo mesmo e, então, com o vazio que carrega dentro de si.
Os obesos tendem, também, a evitar a sensação física de fome. Procuram se antecipar a ela. O contato com a fome os remete a perda, ao desamparo, ao frio. Então, ficam beliscando o tempo todo.

Pode ser essa a causa de tantos fracassos que esses indivíduos experimentam ao tentar emagrecer. Geralmente, toda dieta começa bem sucedida, mas chega um ponto em que a camada de gordura que os envolve se afina tanto que eles se sentem fortemente ameaçados. Essa situação só pode ser resolvida com o retorno à compulsividade.

Todo corpo obeso envolve um corpo emocionalmente esquálido, desnutrido de afeto, de calor humano. Envolve e protege, mas também isola. A gordura os impede de fazerem contatos, os impede de serem verdadeiramente tocados e vistos. Frente a isso, tendem a construir uma imagem que os faça serem aceitos por todos. Tornam-se simpáticos, brincalhões, prestativos, “boas praças”. Porém, manter essa imagem tem seu preço. Certa vez, uma paciente desabafou: “Meus amigos se divertem comigo, me acham uma pessoa feliz. Eles não sabem o que eu sinto”.

Na Análise Bioenergética, o trabalho corporal com pacientes obesos deve ser iniciado, concomitantemente, com exercícios de respiração e de grounding.

Respiração

A respiração do obeso é sempre curta, superficial. Para Lowen, a carência sofrida durante a fase oral reduziu a força do impulso de sugar e uma boa respiração depende da capacidade de sugar o ar. Pode-se sustentar também que, mais adiante, venha a afetar a capacidade de mastigar, devido à hipotonia dos músculos da região da boca. Além disso, dado que o oxigênio é fundamental para a metabolização do alimento ingerido, sua carência provoca uma perda energética, que pode ser compensada com a ingestão de quantidades cada vez maiores de alimento.

Na terapia bioenergética, incentiva-se uma respiração cada vez mais profunda para aumentar a carga energética10. Pousar a mão em seu tórax e/ou, abdômen os ajuda a sentir os movimentos de expansão na inspiração e de recolhimento na expiração. Pressões com as pontas dos dedos ou com os punhos podem ser necessárias para mobilizar a musculatura contraída do peito e abdômen e permitir um movimento respiratório mais profundo. Essas pressões podem provocar dor; nestes casos, é pedido para que eles expressem a dor com um som durante a expiração.

Uma respiração cada vez mais profunda permite um contato maior com o corpo e com o que acontece nele. Energiza o corpo. Pode provocar formigamentos, movimentos involuntários, vibrações. Sentimentos podem ser mobilizados. O terapeuta, ao seu lado, deve incentivar o paciente a colocar pra fora o que está sentindo, dando suporte necessário para que as emoções possam fluir. Ao final do exercício, é pedido ao paciente para que relate o que foi vivenciado, para que se possa elaborar a experiência vivida e reinserí-la em sua história de vida.

Possibilitar ao paciente obeso um fluxo respiratório mais profundo é uma forma de conscientizá-lo de que ele não necessita de tanta comida para se energizar. Na verdade, nossa maior fonte de energia é o oxigênio. Podemos sobreviver semanas sem alimentos, mas não mais do que alguns minutos sem respirar.

Certa vez, após um exercício em que sua respiração foi altamente aprofundada um paciente relatou uma sensação incomoda na região do abdômen. Sentia-se enjoado. Na sessão seguinte, relatou que naquela noite, como a sensação de enjôo não havia cessado, ele se levantou e foi ao banheiro disposto a induzir o vômito, para eliminar o desconforto que sentia. Ao provocar o vômito, foi tomado por uma intensa onda de tristeza, que culminou com um choro convulsivo como ele nunca havia experimentado antes. Seu diafragma havia sido liberado.

O diafragma, um extenso músculo situado entre o tórax e o abdômen, quando cronicamente contraído aprisiona nossas emoções, impedindo-as de virem à tona. Os exercícios respiratórios atuam no sentido de mobilizar o diafragma e os outros músculos envolvidos no ato de respirar. As tensões musculares vão sendo dissolvidas, permitindo uma respiração mais profunda e um contato maior da pessoa com suas sensações e sentimentos.

A partir desse episódio, esse paciente começou a se conscientizar do quanto ele havia reprimido seus sentimentos, do quanto ele os “engolia”. De imediato, reconheceu a expressão “engolir sapos” como sendo uma atitude muito comum ao se confrontar com situações difíceis de sua vida. “Engolir sapos”, “por pra dentro” são expressões comuns que, quando não descritas, são imediatamente reconhecidas pelos obesos. Outra paciente, em tom de brincadeira, disse que precisaria eliminar os sapos de sua alimentação, se realmente ela quisesse emagrecer.

A Análise Bioenergética ajuda os obesos a reconhecer essa atitude básica que construíram para lidar com as questões de sua vida e oferece instrumentos para construção de uma nova postura frente a elas. Mas essa nova postura necessita de um suporte, uma base sólida que a sustente.

Grounding

Grounding11 é um conceito fundador da Análise Bioenergética. Estar “grounded” é estar enraizado, embasado na sua realidade. É o oposto de estar “andando nas nuvens” ou “de ponta – cabeça”.

O exercício básico para aprofundar o grounding12 é feito de pé, com os pés paralelos e afastados cerca de 25 cm, quando é pedido ao paciente que destranque seus joelhos, flexionando-os. Essa flexão faz com que o corpo deixe de se apoiar nos joelhos e passe a ser apoiado pelos seus pés em contato com o chão. Pede-se então, para que ele permaneça nessa posição o tempo que for suportável, respirando profundamente. Variações dessa postura básica podem ser feitas, mantendo as pernas na mesma posição, mas arqueando o corpo para trás ou fazendo-o inclinar-se para frente até que os dedos das mãos toquem o chão. O incomodo e a dor, se surgirem, devem ser expressos com um som na expiração. Com o tempo, os pés podem começar a formigar e as pernas a vibrar involuntariamente, sinal de que a energia começa a fluir. Os relatos da experiência vão desde a sensação de profundo contato com a terra à angustia e o medo de que suas pernas não suportem o peso do corpo, falhem e eles caiam.

Cair13, na Bioenergética tem o sentido de abandonar as defesas, de se entregar aos sentimentos, de fazer contato com a realidade. No cotidiano, fazemos uso desse sentido quando dizemos que “caímos de amores”, “caímos na real” ou “caímos no sono”, por exemplo. O medo de cair evoca o medo de perder o controle e, em última instância, o medo de morrer ou de enlouquecer.
Fazer exercícios de grounding em pacientes obesos costuma produzir efeitos intensos. Eles se deparam com a real dimensão de seu problema, eles literalmente sentem seu peso. Podem se sentir sem apoio, o que evoca o desamparo que experimentaram na infância e têm medo de cair. Podem perceber o verdadeiro esforço que fazem para se sustentar. Essas sensações e sentimentos vão sendo trabalhados então no contexto de suas histórias.

A partir daí, de posse de um fluxo respiratório mais profundo e com a sensação de estar sobre as próprias pernas, o obeso se sente em condições de confrontar suas dificuldades, em busca de uma nova maneira de lidar com seus desejos mais profundos e com as demandas do mundo externo. A terapia prosseguirá até que ele se sinta em condições de assumir verdadeiramente seu processo de emagrecimento, deixando de depositar nos outros a responsabilidade por aquilo que somente ele pode alcançar. Cabe ao terapeuta acompanhá-lo nessa jornada, consciente de que o processo não é linear, que haverão recaídas e que estas não devem desanimá-lo, pois se isso acontecer ele estará cedendo à resistência do paciente, levando-o, mais uma vez, a repetir a sua história de abandono.

CONCLUSÃO

Fiel à sua origem reichiana, a Análise Bioenergética atua, também, numa dimensão política. Afinal, de que adianta trabalhar pela transformação do indivíduo sem que seja construída uma consciência crítica do mundo em que ele se insere, que busca negar a expressão da individualidade, em nome de uma normatização dos modos de ser? O trabalho com pacientes obesos deve lhes garantir, antes de tudo, o direito de ser como eles são. Emagrecer deve ser um ato de desejo, em alguns casos uma necessidade, nunca a imposição de uma estética dominante, que segrega aqueles que dela se afastam.

Em torno do obeso, um grande mercado floresce e enriquece. De um lado, as promessas sedutoras de emagrecimento garantido. A oferta é enorme e variada: nos spas, nos livros de dietas, nas drogarias, sempre há uma novidade. O Brasil ostenta o título de campeão mundial do uso de inibidores de apetite. A cirurgia bariátrica vem sendo feita descumprindo a minuta do Ministério da Saúde14 que lista as condições necessárias para sua realização. Obesos se submetem a dietas calóricas para atingirem o peso mínimo necessário para serem operados. As complicações póscirúrgicas (depressão, substituição da compulsão)15 estão sendo criminosamente subestimadas.

Do outro lado, a indústria alimentícia vende o prazer a cada gole, a cada mordida. A propaganda é perniciosa e as crianças são as maiores vítimas de seus apelos, melhor dizendo, de suas apelações. Estão sendo formadas as novas gerações de obesos. Para exemplificar, o que dizer da frase colocada bem abaixo da logomarca de uma famosa multinacional de fast food: “AMO MUITO TUDO ISSO”. A relação entre comer e amar se faz aqui presente, induzindo ao consumo de um alimento de pobre valor nutricional, mas extremamente calórico.

Refém desse mercado, a única certeza que o obeso pode ter é que seu bolso, este sim, irá emagrecer.

Não conscientizar os pacientes obesos do lugar em que são colocados por esse mercado vai, com certeza, por em risco todos os esforços terapêuticos. Não atentá-los para esta realidade é, mais uma vez, abandoná-los à própria sorte.

A Análise Bioenergética busca conscientizar o indivíduo obeso de que a obesidade é o sintoma16 de uma defesa estruturada e, mais do que isso, atua para que ele possa construir novos instrumentos que lhe permitam lidar de uma forma mais efetiva, saudável e prazerosa com seu corpo, com seus sentimentos e com os desafios que se lhe apresentam.

* Álvaro Soares Pinto Fernandes Psicólogo clínico pela Universidade Gama Filho Membro da Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética – SOBAB / SP Consultório: Rua Havaí, 62. Sumaré, São Paulo. Tel: 11 99403-9640 – e-mail: fernandesalvaro@uol.com.br

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